Naquela manhã, e para sua total surpresa, não havia uma única nuvem no céu e o sol, ora, esse brilhava como se o amanhã não existisse. Levantou-se, seguiu-se a rotina habitual: correr para ligar o chuveiro, duche rápido, escolher roupa, comer qualquer coisa, lavar dentes, pentear e sair para o trabalho. Como a sua loja não ficava longe optou por uma caminhada em vez da viagem aborrecida de carro; gostava de correr, de passear pelo meio dos jardins, aventurava-se sempre, mesmo quando o sistema de rega se ligava, era uma alegria para ela, mesmo com os seus quase 30 aninhos corria como uma miúda pelo meio da água e nunca se cansava; notava-se que era feliz, que todas as partidas da vida tinham sido uma mais-valia, era aquela amiga sempre com o dito sorriso: "a vida corria-lhe bem", a frase mais ouvida pelo meio das conversas entre amigos. Quando ia a pé para o trabalho, preferia ir sempre pelo meio do parque que tinha em frente ao seu estimado e velho prédio do que pelos passeios, lado a lado com os carros e aquelas filas intermináveis de pessoas irritadas e apressadas por causa dos atrasos nunca tolerados pelo chefe mauzão. No banco em frente ao rio, onde por vezes se sentava e via o pôr-do-sol, naquela manhã estava sentado um senhor que nunca tinha visto antes: tinha um ar frágil, mas não tinha mais que os seus 50 anos, já com algumas marcas da vida, cabelo grisalho e um rosto cansado. Nada melhor que uma cara nova para a pôr a imaginar o que teria acontecido na vida daquele homem. A Margarida era assim, não conseguia evitar, via alguém e os pensamentos surgiam: quem seria, como estaria, o que teria passado e alcançado na vida, quais seriam as suas melhores e piores histórias. Nesse dia, quando regressava para o seu ninho, o homem misterioso continuava sentado no mesmo sítio, na mesma posição, com o mesmo arzinho frágil e ela decidiu sentar-se e ver o pôr-do-sol junto daquele desconhecido, que não lhe tinha abandonado os pensamentos ao longo do dia. Tentou fazer conversa, algo que soasse ocasional, mas nada, o homem não proferiu um único som e, para seu próprio espanto, levantou-se, pegou na carteira e ia seguir caminho quando uma mãozinha fraca lhe agarrou o braço e lhe pediu para que se sentasse e por entre os dentes disse " há algum tempo que preciso de conversar com alguém". Margarida arregalou os olhos como sinal de espanto, nunca pensou que viesse a ouvir a voz daquele desconhecido, não naquele tom e muito menos a pronunciar o que ela tinha acabado de testemunhar. Era alguém que tinha sido atraiçoado pela vida, talvez daí tivesse resultado aquele arzinho tão débil, e então surgiu uma ideia a Margarida: e se o convidasse para jantar lá em casa? não tinha planos para aquele serão e aquele senhor não era capaz de lhe fazer fosse o fosse. Com algum custo o senhor António lá aceitou e foram rumo ao cantinho acolhedor de Margarida. Entre alguma conversa de circunstância ela aqueceu a sopa que tinha feito no dia anterior e fez uma massinha com cogumelos, fiambre e queijo, a sua especialidade. O senhor parecia esfomeado, ou então tinha saudades de comida quente. Margarida não conseguia tirar os olhos dele, era um mistério e ela ainda não tinha conseguido assimilar tudo. O homem, com aquele aspecto quebradiço e com uma voz doce contou-lhe como a vida o tinha atraiçoado umas semanas antes, como ainda estava a recuperar do choque de ter perdido tudo o que tinha numa pequena briga. Margarida, com aquele coração do tamanho do mundo não conseguiu negar abrigo e os dias foram correndo e ela ganhou ali um amigo, que nasceu quando o sol se pôs.